1. Correndo o risco de ignorar a possibilidade de se reconhecer outras instâncias da mesma coisa em diferente contexto, mas ao mesmo tempo reconhecendo o extremo formalismo que tal postura poderia trazer, postula-se: As conexões em rede através de dispositivos eletrônicos não seriam possíveis, na escala em que hoje são reais, não fosse a insistência viril dos métodos e práticas próprios do capitalismo produtivo. Convém afirmar tal relação não como estrita dependência, e nem como certo efeito. Não poderiamos dizer, por exemplo, que qualquer possibilidade de rede informatizada depende do avanço conceitual, técnico e ideológico de algo como a essência do capitalismo; tampouco que qualquer capitalismo, ao se desenvolver até um certo estágio, culminaria necessariamente num crescente imperativo de informatização das afetividades. No entanto, vale ressaltar que a questão da escala é decisiva neste processo. Tanto pela histórica fixação da ideia moderna da economia pelo excessivo, quanto pelo caráter e própria manifestação da rede em seu presente estado. Também não se destaca partes convenientes da realidade para justificar mecânicas sociais de interdependências essenciais entre fenômenos recentes, por exemplo, dizendo que é a própria produção no sentido econômico, tanto em regimes capitalistas ou outros infinitos que possam vigorar, que resulta, dentro de um quadro evolucionista, numa rede de alcance mundial. Com todas as ressalvas ditas e explícitas, repete-se: As conexões em rede através de dispositivos eletrônicos não seriam possíveis, na escala em que hoje são reais, não fosse a insistência viril dos métodos e práticas próprios do capitalismo produtivo. Relaciona-se a web com a produção e extração de recursos. Em um nível mais concreto, é correto dizer que as máquinas de alta complexidade técnica (necessárias para as conexões telemáticas) não existiriam sem uma orquestração muito precisa do fluxo de matérias e trabalho, sem a intencionalidade do trabalho projetual. No entanto, a relação que se coloca em questão, em maior profundidade, é a relação abstrata que se dá pelas escalas, enormes escalas que caracterizam tanto um quanto o outro. Mesmo que pela mera semelhança, tal relação é notável. Há espaço para dizer, por exemplo, que desenvolveu-se a rede com “vontade de grandeza” (se for todavia possível atribuir vontade a coisas dessa natureza), a exemplo do que o antigo capitalismo já mostrava. Ou ainda, já que se propõe conectar-se a outros homens, não é de grande ajuda que não seja exatamente todos os homens. Há 7 bilhões deles, e seria exercício vão estimar quantos destes estão incluídos na rede mundial de alguma forma, e quantos no regime produtivo do capital.